1.5.14

Neste dia, há 20 anos...

A chegada do Primeiro de Maio era sempre altamente antecipada. Era - geralmente - um dos poucos dias do ano em que saíamos todos em família. Para a serra ou para o parque de Santa Catarina bem no centro do Funchal, não importava - podíamos brincar, jogar à bola, correr e gritar à vontade.

Este Primeiro de Maio foi diferente...

Calhou num Domingo. Ficamos por casa para ver o inicio do Grande Prémio de San Marino. Eu tinha 10 anos e o meu piloto de eleição tinha feito pole position, depois de não ter terminado as duas primeiras corridas. Achava que depois da mudança para a Williams veria um domínio total de Senna, por isso estava um bocadinho desapontado. Nesta altura, a família toda via a Formula 1 sem excepção - nem mesmo a minha Avó, muito pouco dada a eventos desportivos (mas conhecida pela familia toda por ser uma espécie de Nostradamus do desporto).

A corrida começou com um grande acidente, com o piloto português a ficar logo fora de acção. Lembro-me de ter comentado com o meu Tio: "Ainda bem que o Senna saíu à frente!"

Depois de limpa a pista, a corrida recomeçou, por esta altura, a minha Mãe avisou que iríamos sair daí a pouco.

Foi então que o acidente aconteceu. Quando vi a repetição, pensei logo que já tinha visto acidentes bem piores, em que os pilotos nem se tinham magoado - e lembrei-me do Barrichelo uns dias antes e respirei de alívio por uns instantes quando vi o movimento da sua cabeça. Foram só mesmo uns instantes...

Quando o Ayrton foi posto na maca e os seus pés "cairam" um para cada lado e a minha Avó disse: "Pronto, este já foi..." e o meu sangue gelou.

Tivemos que sair logo a seguir. Não vi nem ouvi notícias durante o dia todo. Chegamos a casa já noite, quando na entrada da minha casa, um vizinho que tinha andado comigo na escola primária me pergunta: "Sabes quem é que morreu?" e sem me dar sequer tempo de perguntar quem, responde logo "O Ayrton Senna".

Foi assolado por um sentimento que conhecia demasiado bem.
Uma estranha sensação de tristeza, incredulidade e impotência. Tinha mais admiração por aquele homem que nunca conheci, que só via na televisão do que por muitas das pessoas que faziam parte da minha vida. O sentimento foi tão forte, que consigo facilmente revivê-lo enquanto escrevo estas palavras. Ainda me lembro da minha Mãe me chamar de tonto, por ter chorado algumas lágrimas por alguém que nunca sequer conheci.

Nos anos que se seguiram, fiz por esquecer. Deixei de ver Fórmula 1 - aliás a família quase toda deixou de ver Fórmula 1 - e forcei-me a me interessar por outras coisas.

Passaram 20 anos e só há mais ou menos 3 anos é que consegui voltar a recordar. Os vídeos levaram-me de volta ao chão da sala da minha Avó, rodeado dos meus Tios e com o meu Avô no canto do sofá a dizer, em jeito de comentário: "Estes Franceses já nos roubam desde do Platini!"

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